Tudo começou com uma encomenda que chegou errada.
Jeff e Janice Ivey moram em New Braunfels, no Texas, e são daquele tipo de torcedor que o Wrexham ganhou sem nunca ter jogado perto de casa: chegaram pela série. Assistindo a Bem-Vindos ao Wrexham, viram um episódio que mostrava a Declan Swans, banda da cidade, e resolveram comprar dois moletons pela internet.
Quando o pacote atravessou o Atlântico e chegou ao Texas, tinha só um dentro. Jeff mandou um e-mail avisando. A banda enviou o que faltava — e a conversa não parou por aí. Do outro lado estava Michael Hett, o vocalista. Os dois seguiram trocando mensagens, viraram amigos, e foi Michael quem soltou a frase que mudou tudo: por que vocês não vêm conhecer Wrexham?
Sete viagens em dois anos e meio
A primeira visita foi em 2024. Depois vieram a segunda, a terceira, e cada uma durava um pouco mais que a anterior. Foram sete no total, em dois anos e meio.
Em abril, o casal decidiu fazer o teste de verdade e ficou um mês inteiro na cidade. Não como turista que tira foto no Racecourse e vai embora, mas para descobrir como é a rotina: o mercado, o pub, o ônibus, o clima que não perdoa. Saíram de lá convencidos.
Carvão, aço e gente que trabalha
Parte da explicação está na biografia dos dois. Janice cresceu numa comunidade de mineração na Pensilvânia. Jeff é de Pittsburgh, cidade industrial marcada por carvão, aço e fábrica — a mesma matéria-prima histórica do nordeste do País de Gales.
“Wrexham é uma cidade de trabalhador, com muita história. As pessoas e o passado daqui lembram os lugares onde a gente cresceu.”
Jeff Ivey, à BBC
Mas o que fechou a conta, segundo eles, não foi a paisagem nem a história. Foram as pessoas. Acolhedoras, amigas, sem elitismo e sem esnobismo — uma sensação que, nas palavras do casal, eles não tinham encontrado em lugar nenhum dos Estados Unidos.
A mudança já começou
Não é plano para o futuro: está acontecendo. Jeff, de 62 anos, tem cidadania britânica por causa da ascendência escocesa e já está em Wrexham procurando casa. Janice, de 65, ficou no Texas cuidando da venda da casa da família e esperando o visto sair. Jeff havia se aposentado depois de uma carreira em finanças, e o casal já pensava em mudar de cidade quando a pergunta apareceu: e se fosse Wrexham?
Raízes antes mesmo de ter endereço
O que impressiona nessa história não é a mudança em si — é o tamanho do envolvimento antes mesmo de a mudança estar concluída.
Os dois já são voluntários no Wrexham Miners Project, que preserva a memória das comunidades mineradoras da região, e apoiam o Hope House, hospice infantil que atende famílias do norte de Gales. Jeff está aprendendo galês. E quer participar da campanha de Wrexham para ser a Cidade da Cultura do Reino Unido em 2029.
Do lado do futebol, já deu entrada num season ticket. E deixou claro que o compromisso não depende de tabela:
“Podem subir, podem cair. Não importa. É o nosso clube.”
Jeff Ivey
“A gente não está vindo pelo clube”
A frase que resume melhor a história toda é a que o próprio Jeff usou para explicar a decisão: eles não estão se mudando por causa do Wrexham AFC. O clube é bônus.
“A gente não está vindo pelo clube, isso é um plus. Está vindo pela comunidade.”
Jeff Ivey
É exatamente o que a série vem dizendo há cinco temporadas, só que agora dito por quem assistiu de casa, do outro lado do oceano, e resolveu levar a sério.
E o Reynolds?
Quando a história do casal apareceu na BBC, Ryan Reynolds fez o que costuma fazer: resumiu tudo numa piada de seis palavras no X.
“Ainda bem que eles não assistiram Chernobyl.”
Ryan Reynolds
Piada à parte, o caso dos Ivey é a medida mais concreta do que Bem-Vindos ao Wrexham fez com a cidade. Não é audiência, não é venda de camisa, não é turista de fim de semana. É gente vendendo casa, tirando visto e aprendendo galês.
Aqui do Brasil, a gente entende bem. A distância é maior, o sotaque é outro, mas o caminho é o mesmo: você assiste a um episódio achando que é só mais uma série e, quando percebe, já está torcendo.
Up The Town!
Fonte: BBC / Leader Live.